quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A voz do silêncio

Eu gosto de quando todos estão dormindo, há um silêncio absoluto, é muito melhor quando não tem ninguém por perto.
Lembro-me a primeira vez que ouvi as vozes, eu estava sozinho em casa, cursava o último ano do ensino médio, e estava pesquisando sobre os cursos de graduação, eu não me encaixava em nenhum, todos envolviam pessoas, falar com pessoas, escrever sobre pessoas, convencer pessoas, e eu queria algo que pudesse fazer sozinho, sem ter que pensar em mais ninguém, e então eu ouvi:
— Você não precisa deles!
Achei que tinha mais alguém em casa, procurei por todos os cômodos e não encontrei ninguém. Hoje as vozes são tudo o que eu tenho, elas me compreendem, me apóiam, e me incentivam a seguir em frente, mas há muito barulho aqui, o que pensam que estão fazendo com todo esse barulho, as vozes querem silêncio, elas estão me pedindo para silenciá-los, mas não sei como fazer isso.
— Você precisa silenciá-los!
— Não, eu não posso.  — Afirmo.
— Sim, você pode! — Elas insistem.
— Como vou fazer isso?  — Pergunto.
— Você sabe como!
Eu realmente sei o que fazer, saio do meu quarto e vou para o quarto do meu pai, eu sei que ele guarda seu revólver na segunda gaveta do lado direito do guarda roupa. Não está carregada, mas acesso um vídeo no Youtube que explica exatamente o que preciso fazer. Exatamente às quinze horas da tarde estou pronto para silenciá-los, as vozes continuam me motivando.
— Você precisa silenciá-los, precisa ajudá-los a encontrar o caminho da luz. Nós confiamos em você.
— Eu consigo, eu vou ajudá-los.
Às quinze horas e vinte minutos estou pronto, passo pelo portão com facilidade sem ninguém para me impedir, as vozes me dizem para escolher a última sala a esquerda, pois o barulho maior alí, eu posso ouvi-los também, eles precisam de encontrar a luz, eu abro a porta e atiro…
— Ele tem uma arma!
— Abaixem!
— Socorrooo...minha perna.
— Alguém me ajuda…
— Meu braço, ele atirou no meu braço.
— A professora caiu!
— Alguém me ajuda….
As vozes continuam reclamando.
— Atire em todos! Você pode fazer isso, precisa salvá-los.
Há uma mina vermelha no chão, está alagando a sala toda, estou com medo, com muito medo, tem muito barulho, e não entendo o que as vozes estão dizendo, tem muito sangue aqui, eu tenho medo de sangue, há muito barulho lá fora, eu não consigo entender o que as vozes dizem, ouço barulho de carro de polícia, meu coração dispara, as crianças estão mortas, eu tenho medo de pessoas mortas, o corredor está vazio, tenho sair daqui, não consigo me movimentar, minhas pernas não me obedecem, eu matei todas essas crianças, as vozes não falaram que elas morreriam, meu coração está disparado, minhas mãos tremem, eu só tenho uma coisa a fazer, levo minha mão direita com a arma até a boca, e finalmente há um silêncio.

Rosi Monteiro

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